

Vilmar Alves Ribeiro
Vim pra te dizer adeus,
apesar da saudade que irei sentir,
da solidão que é claro, ficará comigo
e contigo.
Não ouvirás mais o ranger da porta
do elevador, nem o toc, toc, toc, toc,
da madeira sob meus saltos de sapatos
na escadaria...
vim te dar boa noite, te dizer adeus e
sumir sob o silêncio da noite,
emaranhada no vaivém do portão
que ficará atônito às minhas costas.
Não chores! os teus anos poucos, ainda
te farão feliz,
e essa noite se perder· por terra com
tuas lágrimas.
Antes de ir-me, quero lembrar-lhe: não
esqueças o Praticante; alimente-o sempre
É um cachorro valoroso...
A propósito, não paguei a luz, nem o condomínio,
não me restou nada... deixo tudo sobre a penteadeira.
Consertei a pia da cozinha e a torneira do banheiro,
lavei os pratos e os deixo no secadouro.
Seu Arnaldo falou-me da conta da mercearia;
paguei-lhe os duzentos cruzeiros!...
Ah! dona Teresinha, sua mãe, telefonou - ela queria
a receita do pão... não sei, não sei como se faz!
Então disse-lhe que você a levaria amanhã.
- Ainda não sei, é possível que me vá pro norte,
ou pra Cuba ou pra Rússia; quem sabe Angola, Moçambique,
sinceramente ainda não sei aonde irei.
Ora! guarde essas lembranças, são boas, são más,
elas valem como nós em nós... dias, horas e horas...
não te esqueças, viu! do Praticante.
Coma bem... e quando fores ver a Severina,
dá um beijo nos meninos por mim.
- Ainda não sei, num já disse? Que teimosia!
Talvez Londres, Paris... É, dizem que lá é bom...
ou a Tchecoslováquia, ainda não sei...
Só vim te dizer adeus, não chores!...
São Paulo, 25/12/79
De Cantiga Pra Gente de Casa, Chegada em Cima da Hora, São Paulo, 1978
Preservando e propagando a
Cultura Afro Brasileira
incentivando e promovendo seus artistas.