

Oswaldo de Camargo
Ver-me assim é ver num campo aberto
um cimo verde, um horizonte azul,
e uma alma em meu vergel interno,
a qual eu pastoreio e alimento.
Gosto de olhar minha revolta alma
aqui deste rochedo em que me assento...
Tenho um riacho também que me tortura,
bucólico e terno...
Às vezes, ao voltar do meu rochedo,
após um dia todo de labor,
lavo o rosto em sua água e torno-me
amável e sonhador...
A alma que alimento e pastoreio
passeia em minha face juvenil
nos dias de excursão, paisagens outras,
cansada deste pífaro que toco
aqui neste rochedo em que me assento...
Mas sou o quê? A vida aberta,
se a meus lábios leva alimento,
conduz também até meu pasto interno
amorfas caravanas do não-ser...
E, além do vento que me esperta, venho
o gesto erguer, filtrando o teu alento,
Ó vale e calmo ar!
Moço na face, esse costume antigo
de em rocha estar sentado me enternece
pelo amor
com que faço meu ser não me enfadar...
Tornei-me escadaria de mim mesmo...
Degraus de abatimento! Vou a esmo...
III
Longe do que já fui, me vou tal qual
fio d'água caindo da montanha...
A paisagem é tão outra, até os seixos
já têm a posição de areia leve
que o vento fez mudar. Isso me estranha
o pensamento, nervo absoluto
do frouxo maquinismo em que ambulo.
Eu moço partirei, a face obscura,
não mais paisagística de mim, dispersa-se.
Eu moço partirei hoje no rumo
do que não sei e volto a qualquer fábula
o rosto estreito e frágil em que sumo
um pensamento de ouro em corpo escuro...
VII
Agora já não sou aquele aceno
de bandeira em dia engalanado...
Já não posso dizer: "Estou contente,
pássaro, sou o teu par!"
Hoje eu já não sou alegre, nem sereno,
mas conheço a losna em minha chávena...
Espero que a morte não me aguarde,
posso ainda sofrer!
Hoje eu já não sou alegre, nem sereno,
nem estou a morrer...
Mas sei que meu grito perpetua
a cor da rosa rubra e faz-me lâmina
a vibrar entre o amor de que me nutro
e tua vida que eu sonhara minha!
XIX
Não me lanço, amor, sobre esse asfalto,
porque tenho uma rosa na mão, maravilhosa!
E ela é tão minha e nunca olhou a nuvem,
nem o veludo qual chama do amaranto...
Š uma rosa sem vale, nem jardim,
e eu a devo salvar, seja com pranto,
seja com sal ou cilícios ou amargor...
Não me lanço, amor, sobre esse asfalto,
porque tenho uma rosa na mão, tão carmesim...
E eu a devo salvar seja a custo
de abandonar neste chão minha amargura
e essas horas de cinza, mas nunca a vida...
Minha vida por esta rosa!
XXXIII
Quero a estrela mais alta,
a que desconheço!
Não mais Sírio, prefiro
a estrela inconcebida!
Quero a estrela profunda
no ausente do céu perdida...
Quero apanhar essa estrela,
cabelos de fogo ardendo
e a face de labareda...
quero a estrela mais alta,
mais igual à minha vida,
a que desconheço...
XLII
Essa mesa foi feita de aroeira
que minha avó plantou, percebo ainda
gritos como o do vento em suas pernas,
vejo a fragilidade no seu dorso...
Essa mesa tem a alma cor de aroeira...
Pássaros já extintos procuram
em regiões distantes essa mesa...
Abelhas (ai, bem sei!) relembram tanto
o pólen que decerto está intacto
nessa mesa; insetos talvez, que desespero!
perfuram só granito e pedem a mesa!
Mas essa mesa foi feita de aroeira
que minha avó plantou, enfim desvendo
que coisas suas também procuram a mesa...
Algo como a saudade de encontros,
quando verde era a manhã e muito antes
de esta sala, sombra, e mesa inerte!
De Um Homem Tenta Ser Anjo. São Paulo, 1959
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O SAUDOSO GUARDADOR DAS RESES
Bem sei que o moço corpo nesta sala De Quinze Poemas Negros, São Paulo, 1961. |
EM MAIO
Já não há mais razão para chamar as lembranças Publicado em O Estado de S. Paulo, 25-1-1987, Cad. 2, p. 5. |
Preservando e propagando a
Cultura Afro Brasileira
incentivando e promovendo seus artistas.