afro
afro José Carlos Limeira
Vive em Salvador. Autor, com Ele Semog,
de O Arco-Íris Negro, 1978 e Atabaques, 1983.
José Carlos LIMEIRA Marinho Santos, nasceu em Salvador -BA
em 01 de maio de 1951. Engenheiro Mecânico, atualmente é Assessor
Técnico da Reitoria da Universidade do Estado da Bahia. Escreve
poemas, contos, crônicas e artigos publicando desde 1971. Entre
seus livros, Zumbi... dos, Lembranças, O Arco Íris Negro (parceria
com Éle Semog), Atabaques (parceria com Éle Semog). Participou de
vários números dos Cadernos Negros e das Antologias Schwarze
Poesie (Ed. Diá-Alemanha), Schwarze Prosa (Ed, Diá -Alemanha),
Callaloo vol 2 (USA), Callaloo (Special Issue - 300 anos Zumbi)
(USA), Axé-Antologia da Poesia Negra Brasileira Ed Global 1983,
A Razão da Chama Ed. GRD, Negro Brasileiro Negro número 25
(Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e outras. Verbete em
Quem é Quem na Negritude Brasileira Ed.CNAB 1998, citado em
diversas teses e publicações como A Mão Afro-Brasileira
(Significado da Contribuição Artística e Histórica - Ed.Tenenge 1988),
O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo) entre outras.
MEU SONHO NÃO FAZ SILÊNCIO

Meu sonho jamais faz silêncio
E a ninguém caberá calá-lo
Trago-o como herança que me mantém desperto
Como esta cor não traduzida em versos
Pois se fariam necessários muitos e tantos versos

Meu sonho vara madrugadas
Som alto
De timbales que se arrebatam em cânticos
E trago-o como Olorum na crença
Que não me pune em pecados
Mas
Enche-me o peito grávido de esperanças
Como malungos marchando ao sol de novembro
Subindo as serras
Defesa e guerra

Meu sonho jamais faz silêncio
É a lança brilhante de Zumbi
A espada de Ogum
É o lê, o rumpi, é o rum
É a furia sem arreios
Terra farta dos anseios
Desacato, ato, sem freios

Vôo livre da águia que não cansa
Me faz erê, me faz criança

Meu sonho jamais faz silêncio
É um griot velho que me conta as lendas
De onde fisga tantas lembranças

E com ele invado chats, pages, sites
Na intimidade de corpos em dança
Perpetuando o gosto pelo correto
Meu sonho é pura herança
Rastro
Dos que plantaram, lutaram, construíram
O que não usufruo
Areia que moldada em vaso
Onde não nos cabe culpas
É lúcido ao sol dos trópicos, charqueado ao frio
É como um fio

Grita alto e bom som
Que o seio do amanhã nos pertence
Carregamos toda pressa

Meu sonho não faz silêncio
E não é apenas promessa

Planta em mim mesmo, na alma
Palmares, Palmares, Palmares
Pelo que de belo, pelo que de farto
Muitos Palmares

Carrega como o vento escritos
Versos de Jônatas, Oliveira, Colina , Semog e Cuti
Alimenta e nutre
Lembrando que esta cor me mantém desperto
E não tenho sustos

Sentinela que tange o eterno quissange
Entende a volúpia do calor que me abriga
Desfaz a mentira , destruindo a intriga

Meu sonho jamais faz silêncio
Como um Ilê Aiyê acordando a liberdade
Descobrindo amante ávido o sexo pulsante da existência
Desejo de navegar todos os mares
Comandando todas as fragatas, naves

E nos lança em um solo de Miles
Nos recria em um solo de Coltrane
Clássico como Marsalis, Jazz como Marsalis

E que nem tentem que faça silêncio
Pois voltaria gritando em um texto de Solynca
ás que completa a trinca
Torna-se um canto de Ella, Graça, Guiguio, Lecy
Gente negra, gente negra
Jamelão, mangueira
Brilho da mais brilhante estrela
Nunca se estanca, bravo se retraduz em sina

Só não lhe cabem
Crianças arrancadas da escola
Pela fome que rasga gargantas
E nos promete vê-las
Alimentadas todas, cultas
Meu sonho é uma negra criança
Que luta

Ergue Quilombos, aqui , ali
Em cada mente, em cada face
Impávidos como Palmares, impávidos Ilês
Em todos os lugares

Meu sonho não faz silêncio
Porque feito de lida
Teimoso como esta cor
Para sempre será desperto e certo
Mais que vivo, é a própria vida.


ESTAÇÕES INTERNAS

Estou contando
com a primavera.
Ultimamente
não tem havido flores
Dentro de mim;
Tenho andado
meio chuvoso,
Horizontes nublados,
embora tempestuosos
São frios, frios.
Hoje de manhã
não abri a janela
Saí de surpresa,

E de surpresa vi o dia
Estava lindo.
E fiquei sem vontade
De mudar minha
meteorologia interior
Decididamente
vou romper
com este inverno,
Estou muito úmido
por dentro.
E para tanto,
receita simples,
Vou com o vento
comer, devorar,
Um raio,
um raio de sol.


TREZE

Cansado de ser servido,
em prantos regados de cor e som
para comensais risonhos,
que dilaceram nossos valores,
com os dentes afiados.

Quero agora, no momento lúcido
gritar o necessário fato,
de que os treze ou treze
não nos diz nada além
do que vocês, caros convivas,
querem mostrar, encobrir, ostentar.
Criaram fotos coloridas,
comemorações festivas,
toques de tambores e atabaques,
para mostrar que somos
livres, felizes, e aceitos.
Tolas mentiras!
somos sim:
lascas de suor,
cortes de chicotes,
cheiro de fogão
entradas de serviço.
Precisamos fazer algo sim
para que ao invés
do paternalismo brutal
da gentil princesinha
haja a liberdade
de podermos realmente
abrir a porta desta senzala
para fazer a festa da cor real
do som dos atabaques
de danças e corpos
que rasgarão a noite,
os tempos
no verdadeiro canto
da ABOLIÇÃO que ainda não houve.

De O Arco-Íris Negro, São Paulo, 1978


José Carlos Limeira

Uma iniciativa

Preservando e propagando a
Cultura Afro Brasileira
incentivando e promovendo seus artistas.


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