afro
afro Abelardo Rodrigues

Paulista. Nasceu em Monte Azul Paulista em 1952.
Operário de fábrica, bancário, jornalista.
Vive a maior parte de sua vida entre sua cidade natal,
São José dos Campos e São Paulo.
Autor de Memória da Noite, São José dos Campos (SP), 1978.


RESOLUÇÃO
Não quero um cantar do corpo suave
como descendo em lâminas de navalhas
ou um chilrear de negros de casa grande
endeusando bondades imperiais
Não quero cortar os cabelos eriçados do meu ser
PORQUE

Não é pelo soluço que se constrói
a dor
nem pelo amar que se faz
amor

Um pensar avançado não faz vanguarda
como andorinhas não voam
para o verão
E nós temos as cargas que nas costas
da mente
navegam como deuses em brigas

Não há lendas
Não são Zumbi
Saqueemos o mês das grinaldas

SER NEGRO

Até quando, amigo?
até que o mar volte a ser o que era?
até que os corpos voltem à praia
e se amotinem em negreiras naus
desses tempos?

Há,
um alvo
onde nossas forças recapeadas de fraquezas
brancas
possam medir e serem
torrentes
de uma dor prostrada
violentada
mas que na Primavera será
um dardo
uma lança
um raio laser.

LEILÃO

Quem dá mais
por esse corpo mulato de negro
por essa dor mulata de negro
essa flor
mulata de negro
esse grito-Zumbi mulato de negro
esse latejar pelas sendas mulatas de negro
quem dá mais?

Quem dá mais
por esse abrir-se mulato de negro
ante nova era mulata de negro
quem chora por esse abaixar da cor
mulata de negro?

E quem financia em suaves carnês
este ser-contínuo mulato de negro?

E por ventura alguém daria mais
por esse libertar-se mulato de negro?

CHAMA

Inútil tão inútil quanto o teu azul
tão seco e sereno como os cabelos
carapinha de teu bisavô
que hoje não produz mais teus sonhos
inútil como a solidão do poeta
É a fisga do teu ser
A fumaça que corre os céus
não é mais do que a flor
que murcha o teu coração
e nem meu corpo te roçando ávido
consola teu grito uterino
de cansaço
Nem mesmo saber que teu filho um dia
poder· cantar pássaros
E neste dia os teus cabelos brancos
carapinha sorrirão
mesmo sem a brisa desta chama
que nos consome agora

A NOITE DOS HOMENS SILENCIADOS

O silêncio do poeta
É o trovão das palavras silenciosas
O frio do poeta
É o calor do conteúdo
É a palavra posta em pratos

Ela sobe os morros obscuros
da noite dos homens silenciados
em masmorra da cor

Até quando seremos tambores
com tímpanos quebrados

ESPERANÇAS

Respiro esta fumaça de novas idéias
com meus pés
meus dentes de desejos
minhas garras de sonhos

Quero transpassar as barreiras alvacentas
de velhas datas
enovelar-me entre espirais
de um novo amanhecer
buscando jazidas de esperanças
em jazigos libertos
uma cunha nos contra-fortes dos homens
já saudosos de velhos tempos

A dor reumática do poeta:
ferir ossos com palavras
revolver monturos mesquinhos de sangue
enrijecendo as juntas
vencer tormentas aquosas
no vazio da realidade
canto-angústia maior de sua mente.

VIAGEM CATIVA

Toda vez não será mais ir
olhos contando rumos de formigas
em trilhas cansadas
de um nome para todos
Quem poderia pensar no ir
quando estar é tão perto ainda?

De Memória da Noite, São José dos Campos, 1978.


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