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PORQUE
Não é pelo soluço que se constrói
a dor
nem pelo amar que se faz
amor
Um pensar avançado não faz vanguarda
como andorinhas não voam
para o verão
E nós temos as cargas que nas costas
da mente
navegam como deuses em brigas
Não há lendas
Não são Zumbi
Saqueemos o mês das grinaldas |
SER NEGRO
Até quando, amigo?
até que o mar volte a ser o que era?
até que os corpos voltem à praia
e se amotinem em negreiras naus
desses tempos?
Há,
um alvo
onde nossas forças recapeadas de fraquezas
brancas
possam medir e serem
torrentes
de uma dor prostrada
violentada
mas que na Primavera será
um dardo
uma lança
um raio laser. |
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LEILÃO
Quem dá mais
por esse corpo mulato de negro
por essa dor mulata de negro
essa flor
mulata de negro
esse grito-Zumbi mulato de negro
esse latejar pelas sendas mulatas de negro
quem dá mais?
Quem dá mais
por esse abrir-se mulato de negro
ante nova era mulata de negro
quem chora por esse abaixar da cor
mulata de negro?
E quem financia em suaves carnês
este ser-contínuo mulato de negro?
E por ventura alguém daria mais
por esse libertar-se mulato de negro? |
CHAMA
Inútil tão inútil quanto o teu azul
tão seco e sereno como os cabelos
carapinha de teu bisavô
que hoje não produz mais teus sonhos
inútil como a solidão do poeta
É a fisga do teu ser
A fumaça que corre os céus
não é mais do que a flor
que murcha o teu coração
e nem meu corpo te roçando ávido
consola teu grito uterino
de cansaço
Nem mesmo saber que teu filho um dia
poder· cantar pássaros
E neste dia os teus cabelos brancos
carapinha sorrirão
mesmo sem a brisa desta chama
que nos consome agora |
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A NOITE DOS HOMENS SILENCIADOS
O silêncio do poeta
É o trovão das palavras silenciosas
O frio do poeta
É o calor do conteúdo
É a palavra posta em pratos
Ela sobe os morros obscuros
da noite dos homens silenciados
em masmorra da cor
Até quando seremos tambores
com tímpanos quebrados |
ESPERANÇAS
Respiro esta fumaça de novas idéias
com meus pés
meus dentes de desejos
minhas garras de sonhos
Quero transpassar as barreiras alvacentas
de velhas datas
enovelar-me entre espirais
de um novo amanhecer
buscando jazidas de esperanças
em jazigos libertos
uma cunha nos contra-fortes dos homens
já saudosos de velhos tempos
A dor reumática do poeta:
ferir ossos com palavras
revolver monturos mesquinhos de sangue
enrijecendo as juntas
vencer tormentas aquosas
no vazio da realidade
canto-angústia maior de sua mente. |